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É sempre possível "volver"...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.02.09

 

Este post é inspirado na Cerimónia dos Óscares 2009 e na estatueta que Penélope Cruz ganhou na categoria de Melhor Actriz Secundária. Porquê? Porque me comoveu a forma como a recebeu e como se lembrou do seu pueblo, do seu Realizador, Pedro Almodóvar, e acabou em espanhol...

Por Volver, é por Volver que hoje volto aqui. Volver é uma ideia tão poética... é nome de filme sobre mulheres e a sua capacidade de sobrevivência. E é talvez o papel de Penélope, até ver... e um dos melhores Pedro Almodóvar...

Na Cerimónia de ontem também houve poesia no ar. Sean Penn aproveitou aquele momento mágico, de óscar na mão, para lançaressa mensagem de confiança, e de esperança também. E quase no final lembrou o regresso do seu irmão Mickey Rourke. É também este o sentido de volver...

 

Podia pegar em Volver pelo seu lado hilariante, pela cumplicidade das mulheres: como uma delas protege a filha que lhe despachou o marido para o outro mundo e ambas saem incólumes; como outra delas, depois de despachar o respectivo, ainda se transforma em espírito que faz ginástica numa bicicleta estática; como outra delas vive de uma economia paralela de subsistência, improvisando um salão de cabeleireiro em casa; como várias delas ainda irão ganhar mais uns trocos, servindo a uma equipa de cine que ali foi filmar, os petiscos que trazem dos seus pueblos.

 

Podia pegar em Volver pelo seu lado social, as mulheres aqui unem-se para sobreviver: a uma vida sem perspectivas no pueblo de origem, onde voltam apenas para ir ao cemitério; à agressividade brutal dos homens; a uma dificuldade de se integrar profissionalmente na grande cidade, a trabalhos menores, a tudo o que as coloca numa posição precária. E como se unem, construindo na cidade hostil, pequenos pueblos, células vivas de suporte mútuo.

 

E podia pegar em  Volver pelo seu lado psicológico: esta mulher decide olhar para a frente, sem hesitações. Não hesita em proteger a filha. Não hesita em utilizar o eterno apaixonado, o dono do restaurante. Não hesita em esconder o corpo numa arca congeladora. Não hesita em aproveitar aquela oportunidade, para si e para as amigas, de poder ganhar uns trocos. E ainda terá de lidar com as surpresas da vida. É que o espírito está bem vivo e há-de aparecer-lhe na mala do carro. A forma como encara todas estas surpresas define-a como uma mulher que se cansou da subalternidade.

 

E podia olhar pelo ângulo poético: um pueblo igual a tantos outros, ao longo de uma estrada, casas de um lado e de outro, as idas anuais ao cemitério, velhas tias esquecidas em casas vazias, os petiscos que se levam e que se trazem, a demência que começa a condicionar a sua vida... o contraste com os subúrbios da grande cidade, os pequenos apartamentos, o balde e a esfregona ou o salão de cabeleireiro clandestino, uma equipa de filmagem esfomeada, um enterro improvisado no lugar preferido do marido a olhar o rio... O rio que já vai quase seco, como se verá...

 

Ainda não tinha aqui falado de Pedro Almodóvar, um dos meus preferidos. Comecei com Volver, mas ainda voltarei a este D. Quixote com outros, porque gostei de quase todos eles.

 

 

 

 

 

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publicado às 12:17

Os melhores Realizadores são os que respeitam os espectadores

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.02.09

 

Sempre vi a arte como comunicação: se  não pretende dizer nada a ninguém não é arte. Se não pretende mudar nada, não é arte. Se não pretendeprovocar uma qualquer reacção, não é arte. Com o cinema também é assim. É por isso que não coloco, no plano dos melhores, alguns Realizadores celebrizados. E mesmo que os críticos de cinema nos assegurem que o que produzem é arte, se o espectador não se sentir tocado, envolvido, provocado, assustado, comovido, não é arte, é outra coisa.


O bom Realizador não se sobrepõe ao filme, não se exibe, oculta-se. E ao ocultar-se, afirma-se. O que brilha é o tema, as personagens, a acção. E a razão do filme não é ele próprio, falar consigo próprio ou uma forma de se exibir, mas uma forma de comunicar. Não acredito no culto da personalidade. Mesmo em John Ford, o excêntrico e independente, o que se sobrepõe nos seus filmes é o seu enorme amor ao cinema, ao trabalho de equipa, ao grupo de amigos. É nisso que eu acredito.


E há muitos outros: um pavão como o Hitchcock que até aparecia fugazmente no meio dos filmes para ser identificado (o eterno suspense), e cultivava o voyeurismo, é sempre para o espectador que se dirige, sempre:brinca com o espectador, pisca-lhe o olho,provoca-o até ao limite, como um rapazinho maroto que gosta de pregar partidas.
E até o por vezes insuportável Orson Welles, esse génio perfeccionista até à exaustão, é o espectador que ele quer impressionar e deslumbrar com as suas magníficas proezas. O espectador que conseguiu assustar, ainda muito jovem, num programa de rádio.

O cinema é uma linguagem artística específica: uma imagem fixa, estática, não é cinema, é fotografia. Um longo monólogo ou um longo diálogo, não é cinema, é teatro.
A alma do cinema está no movimento, no seu ritmo, no seu bater do coração. Por isso lhe chamaram motion pictures, essa designação deliciosa... O movimento, a acção, decorre num determinado período de tempo, que tanto pode ser uma hora, como um dia, um mês, um ano ou atravessar séculos. Sendo diferente da fotografia, as imagens não podem permanecer fixas, congeladas eternamente, muito menos quando isso não se adequa ao sentido da acção ou à respiração das personagens.


Compreender a linguagem específica do cinema é interiorizar a importância da gestão do tempo. Sendo diferente do teatro, os diálogos têm de ser muito mais trabalhados e sintetizados com um timing e ritmo adequados à acção e ao tempo em que decorrem. Nalguns Resnais, os actores simplesmente prolongam os seus diálogos até desejarmos calá-los de alguma forma, de qualquer forma! Monólogos intermináveis ou diálogos pormenorizados podem matar um filme.


Podem questionar-me: e a liberdade criativa? Tudo bem, mas uma coisa é aproximar-se dessas outras linguagens artísticas, outra muito diferente é afastar-se completamente da sua própria linguagem. O cinema tem uma linguagem específica, com regras próprias, o domínio de uma técnica: movimentos de câmara, os diversos ângulos, aproximação e distância, a montagem, efeitos especiais, etc. Só a partir do domínio de uma técnica se pode passar para outros vôos. É por isso que há muito de engenhocas nesta linguagem específica. E muita paciência e atenção aos pormenores.


Sequeira Costa disse, num magnífico documentário recente na Rtp2, que um pianista tinha de ter, além de uma sensibilidade acústica fora do comum, uma sensibilidade para a Arquitectura. Que uma partitura era como uma construção complexa. Pois bem, o mesmo se passa com o cinema, só que a construção está em movimento, é móvel, como um grande cubo mágico, com um espaço e um tempo próprios, um ritmo, um equilíbrio. O cinema exige igualmente uma sensibilidade visual fora do comum: Hitchcock conseguia ver o filme todo antes de iniciar as filmagens.
Há uma acção que determina o sentido, mas também pode ser uma acção interior, uma tensão emocional, uma descarga eléctrica, uma atmosfera. E aqui podemos pensar em Elia Kazan.


Ora, só é possível transmitir tudo isto através de uma técnica, a sua base. Uma boa técnica ajuda o bom Realizador. Ter visto os clássicos, ter-se demorado pelos seus loucos inícios, a sua euforia e a sua glória, a sua loucura também, é fundamental para se ser bom Realizador. Não precisa de ver tudo mas precisa de ver atentamente. A pouco e pouco começará a distinguir o que para si é bom, mau e assim-assim. Começará a descobrir, com uma certa perplexidade, que há o bom em filmes de série B e com fraco orçamento, e que há o mau em filmes premiados e até oscarizados. Sim, aprenderá a treinar o seu próprio olhar crítico e a não basear-se nos olhares de especialistas. A partir daí está por sua conta. E já pode arriscar o seu próprio caminho, utilizando a sua própria ferramenta: inteligência, sensibilidade, técnica adquirida, criatividade e ousadia. A cada um a sua sensibilidade.


Spielberg dá-nos autênticas lições de cinema nos seus filmes, como uma síntese baseada na sua sensibilidade filosófica e visual, porque percebeu e integrou a sua linguagem específica, a sua técnica.
Sim, os melhores Realizadores respeitam os espectadores, respeitam o guião, as personagens, os actores. E aqui voltamos ao Clint Eastwood. Todos os actores que com ele trabalham dizem isso mesmo: há um clima acolhedor; mantém um bom ritmo nas filmagens; não exige muitos takes porque se organiza previamente muito bem e sabe o que quer; e consegue transmitir a sua ideia aos actores e aos restantes elementos da equipa.

 

 

 

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publicado às 23:04

Os primeiros anos das idas ao cinema

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.02.09

 

Quando transitei do colégio para o liceu já estávamos em vésperas do 25 de Abril. Portanto, as minhas idas ao cinema com mais frequência coincidiram com a revolution. Registo aqui os filmes que mais me impressionaram mas, para que não fiquem a pensar que não vi muito cinema em sala, no grande écran, coloco aqui uma breve lista de muitos outros, desses anos 73 a 80 (pelo menos dos que eu me lembro).


O primeiro filme que registei para sempre foi o Cabaret com uma frenética Liza Minnelli. Aquela fidelidade a uma época passada, os anos 30, numa Berlim decadente, visível no guarda-roupa (impecável!), e na captação do ambiente de crescente agressividade e cultura bélica, obsessiva, doentiamente nacionalista, dos nazis. Sim, há ali um contraste entre a alienação do cabaret e a violência prestes a explodir nas ruas. E há ainda aquela voz de Liza Minnelli, a lembrar vagamente o timbre inconfundível da voz da sua mãe, Judy Garland... E aquela despedida numa estação de comboio! Não consegui perceber, na altura, porque é que ela decidira destruir a possibilidade do amor e de uma vida dentro de si, como se estivesse programada para a impossibilidade de outra vida fora dali, daquele cabaret.


Como disse, a fidelidade histórica nos cenários, no guarda-roupa, na linguagem e comportamentos das personagens, ainda era rara em cinema. Veremos em muitos filmes dos anos 70 este fascínio pelos anos 20 e 30. Há ali afinidades socio-culturais, a meu ver: uma rebeldia, uma irreverência, um espírito juvenil, uma certa descontracção. Será assim em O Nosso Amor de Ontem, A Golpada e O Grande Gatsby.

 

Mas esta fidelidade histórica surgirá mesmo de forma avassaladora, como nunca antes tinha experimentado, no Barry Lyndon de Stanley Kubrick! O meu Kubrick preferido. Para mim, foi a novidade total! Uma verdadeira viagem no tempo: a atmosfera, a cor, o sabor, a sensualidade de uma época. E aquela banda sonora, acompanhando as aventuras e desventuras de um jovem ambicioso mas pouco sensato. Há planos verdadeiramente fabulosos, de tirar o fôlego, mas o que me hipnotizou foi a atmosfera e essa viagem no tempo. (Este é provavelmente o filme da Marisa Berenson e inequivocamente o filme de Ryan O' Neill).

 

Ainda gostaria de referir aqui um outro, de que não gostei mas por razões alheias à estética, um Visconti, Morte em Veneza, colorido em tons pastel, tão poético e tão incrivelmente decadente... Até a música do Mahler, nas águas prateadas de Veneza, me soou a finados e a flores murchas... Nada no filme nos inspira a viver. Tudo nos inspira a morrer...


Muitos outros filmes terei visto, muitos sem merecerem registo na memória, por isso os esqueci... Vivia-se por essa altura uma atracção por tudo o que tinha sido interdito. O que quer dizer que apareceu muito filme revolucionário e muito filme pornográfico.
Esta onda revolucionária também passou na televisão: em vez dos filmes e séries americanas, passou-se para séries de Leste, believe you me! E para filmes cubanos, chilenos, etc. Nos filmes de animação não era melhor: vinham da Checoslováquia (lembram-se dos programas do Vasco Granja, com aquele sorriso eufórico?) Acredito que as gerações pós-revolution gostem desta animação (até porque os checos têm uma história interessante de teatro de marionetas), mas, para quem tinha crescido com o Duffy Duck, os Thunderbirds...


Os anos 80 já foram melhores, no cinema e na televisão. Houve ciclos de cinema, por realizador, e na televisão voltaram a passar os clássicos. Respirei de alívio. Em breve surgiriam as cassettes onde se podia gravar programando o horário (até conseguir acertar com as variações de horário, alguns filmes ficaram sem o final e com partes de outros programas no início, mas isso foram percalços de principiante.) Gostava de os rever todos um dia, os filmes que vivem agora em prateleiras...


Breve lista de filmes que registei na memória, desses anos 73 a 80: do Woody Allen vi vários: O ABC do Amor; Nem Guerra nem Paz; Annie Hall Manhattan (na altura uma revelação por ser a preto e branco!). Do Ingmar Bergman: Lágrimas e Suspiros e A Flauta Mágica. De Stanley Kubrick: 2001, Odisseia no Espaço; Laranja Mecânica Barry Lyndon. Do Bertolucci também: 1900 e La Luna (o Último Tango em Paris, tão falado nessa época, vê-lo-ei mais tarde e penso que na televisão). E um Visconti: Morte em Veneza. Como não podia deixar de ser os dois Copolla: O Padrinho e O Padrinho II. Com a Liza Minnelli: Cabaret e New York, New York. Algumas comédias românticas (ou serão dramas?) de que destaco: O Céu Pode Esperar (em certos momentos lembrou-me Capra) e O Nosso Amor de Ontem (com uma Barbara Streisand activista e um Robert Redford irresistível). E ainda com o Robert Redford: A Golpada (numa equipa perfeita com Paul Newman) e O Grande Gatsby. Sobre os efeitos da guerra do Vietname: O Regresso dos Heróis (com a Jane Fonda). Sobre o terrorismo: Resgate em Entebe. Também com o Richard Dreyfus: Inserts. Sobre a Inquisição: Os Diabos (com Vanessa Redgrave e Oliver Reed). Podem questionar-me: e então o Voando sobre um Ninho de Cucos? Vê-lo-ei anos mais tarde. Assim como o Scorsese Taxi Driver (o meu preferido) e os Spielberg Tubarão e E.T., que vi alguns anos mais tarde, mas ainda muito a tempo de descobrir o seu génio cinematográfico.

 

 

 

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publicado às 12:30


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